domingo, 30 de abril de 2017

Lista Fechada



D
epois de algum tempo inerte, sem escrever, e com a esperança de mudanças, que nada poderia piorar, a gente percebe que o caminho está mais difícil e que os políticos estão mais preocupados em salvar suas peles do que realmente lutar por um país melhor.

A operação Lava-jato incomoda quase a totalidade dos que estão no Congresso, inclusive a Presidência e seus auxiliares mais próximos. O que podemos, ou melhor, o que devemos fazer? Votar?  Aprender a votar? Mas votar em quem? Naqueles que estão sendo investigados e que por manobras políticas estão ainda soltos e com privilégios? Como aceitar que políticos atrás de grades não percam seus mandatos? Existe ética nisso?
Votar ou não votar?  Deixar o encargo para aqueles que desejam que tudo continue como está, seja lá pelas razões que entendem serem corretas? Ou deixar para aqueles que conseguem ser eleitos como oposição e quando assumem não mudam em nada os cenários que conhecemos bem? O que fazer?

Apesar disso, nada é pior do que ser obrigado a votar, do que quebrar a democracia e obrigar você a dar seu voto a alguém que você não confie ou não está de acordo com suas propostas. Se você pode anular ou votar em branco, por que é obrigado a comparecer? Na verdade sabemos da resposta e seria redundante falar sobre isso e é exatamente para acabar com isso que nós, que pensamos na existência de um país totalmente livre, sem nichos obrigatórios, queremos a liberdade de ir e vir numa cabine eleitoral.

E enquanto não houver coragem para mudar, de nos dar a liberdade que merecemos, de ouvir o desejo do povo, dificilmente a confiança estará presente entre nós.

Por outro lado, um governo substituto, mesmo que legal, mas igualmente comprometido como o anterior, tenta agilizar ações que seus técnicos entendem como prioritárias e indispensáveis como novas regras trabalhistas e previdenciárias.

Sabemos que alguma coisa deve ser feita, mas nós, que estamos do outro lado, e não conseguimos enxergar tão longe como os estudiosos que projetam os novos e necessários caminhos, olhamos mais para as consequências, as que hoje nos cercam e as que são projetadas por analistas mais ou menos pessimistas.

Nessa esperança por reformas, a que poderia nos dar um norte, sem qualquer sombra de dúvidas seria a reforma política, onde esperamos que o voto não obrigatório seja realmente discutido, e não esquecido. No entanto a que deveria ser a primeira, foi mais uma vez empurrada para depois, para um dia que pelo jeito tende a ser em outro governo pois o atual deixa claro que não luta por isso.

Por outro lado, com o intuito de minimizar a crise, e mostrar que a reforma política não está esquecida e que a estão analisando, vem a público a proposta de uma “lista fechada” para as eleições, ou seja, os eleitores deixariam de escolher os seus candidatos para votar em uma lista de candidatos predefinida pelos partidos políticos. 

Os que defendem a ideia, afirmam que seria a melhor forma de reduzir o número de legendas, e consequentemente dos partidos pequenos, principalmente os chamados partidos de aluguel, e como consequência, fortaleceriam os grandes partidos. 

E por aquilo que nós chamamos de “coincidência”, os maiores envolvidos nas delações premiadas são exatamente os que propagam a implantação desse modelo. Eles conseguiram o apoio de todas as esferas, principalmente do legislativo e do judiciário. 

Em contrapartida, aparecem propostas como um sistema distrital misto, em que o eleitor vota tanto na legenda quanto no seu candidato, definido por um distrito. É evidente que esse modelo poderia dividir e até reduzir um pouco o poder dos grandes partidos e é exatamente o que eles não desejam.

Claro que tudo isso está diretamente ligado a uma intensa batalha contra a Lava-jato e seus efeitos, que atualmente caminham tanto pela direita quanto pela esquerda. É vista como uma tábua de salvação, principalmente para os mais poderosos, para os donos dos partidos, uma barreira de proteção, pois numa lista criada pelos próprios partidos, esses caciques certamente serão os primeiros das listas e a renovação seria mínima.

Diante desses fatos, dessas dúvidas, e de uma famigerada ideia de “lista fechada”, a obrigatoriedade de votar com certeza deverá ser mantida e dificilmente o legislativo levará tal proposta para decisão do povo, pois é praticamente certo que a sociedade não está de acordo com esse modelo proposto, e caso não estivermos obrigados a votar, com certeza os pleitos serão esvaziados, o que iria demonstar de forma clara e inequívoca a insatisfação do povo e a queda na popularidade de qualquer político que seja eleito. 

Queremos votar, participar, mas não podemos ser obrigados a votar!

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