“O pior analfabeto é o analfabeto
político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do
aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que
odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a
prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político
vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
(Bertolt Brecht)
Conheci esse texto ainda jovem, pouco
depois dos anos 70, quando até então fazia questão de dizer que “odiava a
política”. Fazia parte de uma turma de garotos e garotas, que pensavam mais nas
peladas e domingueiras do que nas bombas lançadas na UNE, perto da minha casa, na
demora dos militares no poder, nas guerrilhas ou mesmo nos assaltos à bancos,
quando uma de nossas amigas chegou a participar e ser presa, a famosa Loura
Assaltante, que na verdade era morena, bonita, uns 3 anos mais velha. Simpática
e quieta, sem nunca transparecer este seu outro lado de ativista. Dizem que fez
parte do famoso grupo de 70 presos políticos trocado pelo Embaixador suíço Giovanni Bucher
em 1971.
Alguns
de nossos amigos chegaram a ir para a rua, levaram umas borrachadas, mas nunca
se infiltraram diretamente, apesar das histórias que hoje contam quando nos
encontramos.
O
tempo passou, os militares, que haviam tomado o poder em 1964 para “salvar a
democracia no país” e acabar com a
esquerda radical que ameaçava implantar o comunismo no país. Tinham um projeto
de transição, que seguiu de pulso firme, num tempo além do esperado pela
sociedade, que terminou somente em 1985, quando João Figueiredo cedeu ao apelo das
manifestações populares pelas “Diretas Já” de 1984.
E
foi exatamente no final dos anos 70, já na faixa dos 20, que li num muro da
Faculdade, em letras garrafais, que “o pior analfabeto é o analfabeto político”
(B.Brecht), e a frase não saiu mais de minha cabeça. De repente passou um filme
que tinha início lá naquele barulho das bombas da UNE, quando corri para ver o
prédio em chamas e fui afastado pela polícia e, alguns dias depois, outra bomba
no antigo Cine Bruni Flamengo, hoje uma grande Igreja Evangélica, ao lado da
sede de remo do Flamengo, onde jogávamos nossas peladas, e que para nós,
naquela época, eram mais importantes.
As
imagens seguintes me levavam para as paradas militares, para as Copas do Mundo,
principalmente ao Tetra de 70, e pula para a grande movimentação das “Diretas
Já”, que realmente nos despertou para o que estava realmente acontecendo no Brasil.
O filme
encerrava com uma grande constatação: sou um analfabeto político. E não me
importava mais se minha turma não se preocupava com a política, aquela situação
passou a me incomodar e comecei a olhar o Brasil, e o mundo, de uma forma
diferente.
Percebi
que o bipartidarismo instituído pelo Regime Militar em 1965 (AI-2) era quase
que uma farsa para disfarçar a ditadura militar implantada e que deveria ser
apenas para livrar o Brasil do temido comunismo que crescia em várias camadas
da população.
ARENA
(Aliança Renovadora Nacional), era o partido da situação. Dele faziam parte os partidários
do Governo e, consequentemente, os indicados para seus principais cargos, como
por exemplo as disputadas Diretorias das Estatais e Fundações.
O
MDB (Movimento Democrático Brasileiro) era a oposição. Uma necessidade para
mostrar ao mundo a existência do regime democrático, não autoritário, resultado
da rápida transição realizada pelos militares em defesa do país que seguia por
um caminho errado.
O
problema é que nós crescemos, e muitos como eu, abriram os olhos e aprendemos
com aqueles que, com pouca diferença de idade, já lutavam por um Brasil
totalmente democrata, sem a imposição de um bipartidarismo em que a oposição
tinha que ficar praticamente calada, sob o risco das cassações de seus
mandatos.
Num
primeiro momento, parecia um confronto entre mocinhos da ARENA, de Teotônio
Vilela, Nei Braga, Rui Palmeira e outros, e os bandidos do MDB, como Tancredo
Neves, Ulisses Guimarães, Fernando Henrique, Mário Covas, Luís Inácio da Silva,
ainda sem o Lula no nome, e outros mais que aos poucos levantavam a voz para
denunciar os desmandos e o autoritarismo do regime.
Deu
também para sentir uma mudança no comportamento dos governos militares. De 64
até 74, o Brasil viveu uma linha mais dura, mais inflexível e com os combates mais
duros contra os opositores ao regime. Tudo era política, e quase tudo era
censurado. A ditadura vigiava os passos de artistas, intelectuais e religiosos,
além dos políticos, fossem eles da própria aliada ARENA ou do MDB. Políticos
como Miguel Arraes, ex-Governador de Pernambuco, e João Goulart (Jango),
ex-Presidente, ambos cassados pela Revolução de 64, eram monitorados de perto pelo
SNI.
E
essa luta, embora mascarada, censurada, escondida, ganhou mais força quando
chegaram ao poder os militares mais “moderados”. Ernesto Geisel assume o
comando em 1974 e faz um histórico levantamento da situação, onde tem a
percepção que a “esquerda radical” não tinha mais espaço no país e que crescia
na população, acrescida dos antes analfabetos políticos, o desejo pelo fim do
Regime Militar, que fez o que tinha que fazer mas demorava a “largar o osso” (o
poder), e isso estaria causando um forte desgaste para as forças armadas.
Geisel
também constatou que a inflação estava em crescimento e que o país não conseguia
superar a Crise do Petróleo de 1973. E não somente o povo reclamava, mas os
próprios militares sofriam com o arrocho salarial que afetava todo o país.
Sentiu que o próprio regime corria perigo.
E
consciente de que a única salvação seria a “abertura política”, determinou uma
série de medidas que seriam implementadas, de acordo com suas palavras, de
forma “lenta, gradual e segura”. Aos poucos, e ainda pelas mãos de um General,
o país iria recuperar as liberdades que ainda estavam sob a tutela dos militares
e da ARENA.
Em
1977, depois de alguns acontecimentos marcantes, como as mortes de Vladimir
Herzog e de Manoel Fiel Filho, ambas nas dependências do DOI-CODI (Destacamento
de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo,
o Presidente, que tinha poder para isso, editou por Decreto, sem passar pelo
Congresso, o Pacote de Abril, com as reformas partidárias para a abertura
política de acordo com as pretensões do Governo, lentas, graduais e seguras.
O
Decreto estendeu o mandato presidencial para 6 anos e criou o Senador Biônico,
ou seja, cada estado iria eleger 2 Senadores e o terceiro seria eleito pelo
partido da situação, em outras palavras, pelo próprio Governo. E a medida mais
importante seria a implantação das “eleições diretas para todos os cargos
eletivos (exceto para Presidente)”, previstas para 1982.
Apesar
de não ser o ideal desejado pela população, era uma clara demonstração que o
militar realmente tinha o interesse de sair do poder, aos poucos, gradualmente
e de forma segura. Mas para quem? Para eles ou para o povo?
Com
as eleições ainda indiretas para Presidente, o Governo superou a linha dura dos
militares e indicou o também moderado o General do SNI, João Baptista de
Oliveira Figueiredo, como candidato da ARENA. Pela oposição, o MDB indicou o
General da Reserva, Euler Bentes Monteiro.
Mas
antes da posse de Figueiredo, eleito pela maioria do Colégio Eleitoral, e
marcada para março de 1979, Geisel deu sua derradeira contribuição para a volta
da democracia ao propor e ver aprovado pelo Congresso, o fim do AI-5, o ato que
dava um poder quase absoluto ao Governo. Um grande presente para o povo
brasileiro e fundamental para que o novo Presidente pudesse dar continuidade ao
processo de abertura.
Figueiredo
foi firme em suas pretensões. Em agosto do mesmo ano de sua posse, assinou a
Lei da Anistia (Lei 6683/79). Uma Lei que anistiou civis e militares envolvidos
em crimes políticos no período entre 1961 (25/08) e 1979 (15/08). Miguel Arraes
e Brizolla, além de artistas como Caetano e Gil, foram anistiados e retornaram
ao Brasil.
E
dando prosseguimento, em dezembro do mesmo ano foi assinada a Lei 6767/79, que
restabelecia o pluripartidarismo no Brasil, mas com a curiosa obrigação de que
todos os partidos deveriam iniciar com a denominação de Partido. A ARENA virou
o PDS (Partido Democrático Social) e o MDB, o PMDB (Partido do Movimento
Democrático Brasileiro). Era o início para a grande salada de letras e
partidos, alguns bastante curiosos, que hoje existem no país.
E a
partir de então pude perceber que já não era tão analfabeto político.
Participava mais ativamente das discussões mas não tinha me filiado a nenhum
partido. Ainda seguia o candidato, e não o partido. Votei em PDS, em PMDB, e em
candidatos de outros partidos, sempre pela proposta, ou até mesmo pela amizade,
mas me afastava quando via alguma ação radical, e aí sentia que a política
tinha que ir além dos nomes e dos amigos, eu tinha que conhecer um pouco mais
das propostas partidárias, das ideologias e também das ações governamentais de
quem estava no poder, naquele momento, naquela cidade.
Fui
convidado algumas vezes para fazer parte de alguns partidos, até mesmo para
coordenar a implantação de um partido em determinada cidade, e inclusive para ser
candidato a Vereador e Deputado, mas em todas as oportunidades declinei. Pouco
tempo atrás me cadastrei no PDS, porque além de uma identificação com as
propostas sociais, ajudaria na campanha de dois candidatos, um de Niterói e uma
amiga do Rio de Janeiro. Na verdade não me considerava “totalmente
alfabetizado” para ingressar formalmente na política mas esse passo foi
fundamental para pensar em ser mais atuante.
No
início dos anos 90, em especial, na Conferência Rio 92, realizada no Aterro do
Flamengo, visitei vários stands, assisti diversos shows, algumas palestras e
praticamente foi onde conheci o PV. Nomes como Gabeira, Sirkis, MInc e vários
artistas eram os porta-vozes do que para mim parecia mais um movimento ecológico,
tipo um afilhado do Greenpeace, do que propriamente um partido político.
Dava
a impressão que seus partidários eram PV mas na política falavam como se fossem
de outro partido, como por exemplo, o Minc, que ajudou a fundar o PV e pouco
tempo depois estava filiado no PT.
E
foi mais ou menos essa a linha de pensamento que segui durante algum tempo. É
como se o PV fosse o América no Rio de Janeiro, ou seja, o nosso “segundo time”.
Gabeira fazia a diferença. Sabia um pouco de sua trajetória de jornalista e
militante político da esquerda armada contra a ditadura militar. Quando preso e
exilado, sempre chegava alguma notícia, algum texto, principalmente quando na
queda de Allende, em 1973. Sumiu um pouco quando foi para a Europa, de onde
voltou anistiado em 1979.
Nas
eleições de 1986, então candidato à Governador do Rio de Janeiro pelo PV, mais
por ele próprio do que pelo partido, Gabeira foi meu candidato. Sua presença deu
mais alegria ao pleito. Nos palanques apresentava uma posição bem diferente dos
outros candidatos, a maioria com discursos chatos e cheios de promessas comuns
e repetitivas. Levou o povo para duas manifestações que até hoje são lembradas,
em uma delas encheu de flores a Avenida Rio Branco na passeata Fala Mulher e
deu um inesquecível abraço na Lagoa Rodrigo de Freitas. Era a apresentação do PV
no Brasil, um partido que seguia, e segue até hoje, uma tendência internacional
contra o desarmamento, pelo fim das usinas nucleares e o investimento no ecodesenvolvimento.
Um partido declaradamente contra as desigualdades sociais, de respeito às
liberdades democráticas, justiça social e direitos humanos, como bem definido
em seus Princípios.
Se
fizermos uma análise nas propostas da maioria dos partidos, os Princípios sociais
serão próximos aos do PV, a diferença fica por conta de sua forte atuação
contra as agressões ao meio ambiente.
E apesar do partido ter em seus Princípios
objetivos básicos da esquerda socialista, na busca por uma melhor distribuição
de rendas, justiça social e “solidariedade com todos os setores excluídos,
oprimidos e discriminados”, não se vê como um partido de esquerda ou de
direita, e sim numa “posição à frente”. E foi essa frase que me conquistou, que
me levou para o PV, para conhecer de perto as propostas e programas verdes.
É uma nova fase, mais próximo de
palanques e manifestações, e que aos poucos vamos descobrindo que o PV
realmente não é apenas um movimento ecológico em favor do meio ambiente, é
realmente um partido político, que está passando praticamente ileso dos
problemas que enfrentamos em nosso atual cenário político, e que vem não
somente crescendo com nomes próprios mas também despertando o interesse de
políticos experientes que desejam o afastamento de legendas comprometidas, ou
mesmo pela identificação com os propósitos do partido.
Gabeira continua como ícone.
Deputado de grande influência no Congresso e o mais votado no Estado do Rio de
Janeiro em 2006. Candidato à Presidente em 1989, à Prefeito em 2008, e o segundo
colocado para Governador do Rio nas eleições de 2010, tudo indica que ainda
seguirá firme em sua vitoriosa trajetória.
Quanto ao PV, acreditamos que
está na hora de crescer. Os Partidos Verdes, em especial na Europa, estão se
fortalecendo, ampliando suas conquistas e assumindo lideranças, um caminho que
entendemos irreversível, inclusive no Brasil.
E para isso faz-se necessário a
participação efetiva do PV nos avanços por uma sociedade justa e perfeita, com
melhor qualidade de vida, educação ambiental, modernização e o “desenvolvimento
sustentável como caminho para combater a miséria e o desperdício”, como
claramente previsto em seus propósitos.
E como disse Millôr Fernandes, “sou
contra a extrema-direita, contra a extrema-esquerda e sobretudo contra o
extremo-centro”.