domingo, 6 de novembro de 2016

Cumpri a minha OBRIGAÇÃO



C

umpri minha obrigação. Postei uma selfie e a reação foi imediata:

- que cara feia é essa?

É a cara da insatisfação, não apenas com os partidos políticos e seus candidatos, mas principalmente com o andamento de nossa jovem democracia.
Nas últimas eleições os votos inválidos cresceram e passaram a preocupar a classe política. Mensalões, corrupção, a queda da Petrobras e de outras estatais na Lava-Jato, prisões de empresários e políticos (alguns), de bandidos em todos os níveis, além das crises na Segurança, Saúde e Educação, foram decisivos para o afastamento das urnas.
Com a Constituição de 1988 conquistamos liberdade e democracia, a mesma que já tirou 2 Presidentes do Poder sem a necessidade de armas e sangue. A mesma que também deu espaço para que nossos políticos, com medo ou covardia, não a coroasse com a plenitude da decisão individual para votar ou não votar e tentar com isso reduzir, ou acabar, com os currais eleitorais de um coronelismo que ainda domina parte de nosso território.
Será que o resultado de 2016 será suficiente para mudanças? O total de votos inválidos, que soma brancos e nulos, e as abstenções, no segundo turno do Rio de Janeiro, por exemplo, chegou aos incríveis 41,53%, evidentemente, sem computar aqueles que só votaram porque foram “obrigados a votar”, o que nos leva a crer que se o voto fosse facultativo, esta soma de inválidos e abstinências seria bem superior aos 50%. E o que mudaria no pleito?
Atualmente o eleitor tem a liberdade de votar em branco ou anular seu voto, e caso falte tem que justificar e pagar uma multa de R$3,51, o que para muitos é “quase” um convite para não votar.
Numa rápida análise, o eleitor que não deseja votar em nenhum candidato, ou comparece e vota em branco, cumpre o regulamento, ou paga a “mixaria” e se desculpa num outro dia. Para ele este é o ato de “lavar as mãos”, quando para ele qualquer resultado está bom.
O repúdio aos candidatos está caracterizado no voto nulo. Ele entende que deixou nas urnas a opinião que nenhuma escolha o atende, nem mesmo votar nos partidos é uma boa opção para ele.
Ao contrário da abstinência em votar, o voto obrigatório, modelo para as principais democracias da América do Sul (Venezuela, Bolívia, Peru, Equador, Chile, Argentina e Uruguai), e que segundo seus políticos, refletem o verdadeiro resultado das urnas, esconde o sentimento de que uma forte e legítima abstenção poderia até abalar uma jovem democracia, pois pode demonstrar tanto o desejo de mudanças quanto uma grave acomodação da sociedade.
Hoje o PT foi a bola da vez. Até seu maior líder não cumpriu sua obrigação de votar. Se ele assim agiu, porque seus seguidores não o fariam? Ele sempre apoiou a obrigatoriedade do voto sob a alegação de que o povo ainda não estava suficiente maduro para o voto facultativo, e ele está?
Sua atitude, com certeza, ajudou no abandono do barco, nas trocas das cadeiras, e deixou uma lição para os demais partidos. Dentro de 2 anos teremos novas eleições. Presidente, Deputados e Senadores serão eleitos por votos válidos e obrigatórios (talvez) mas é certo que se não acontecerem mudanças, a tendência de votos inválidos e abstinências certamente crescerão mais ainda.
O que a maioria dos eleitores esquecem é que nosso processo eleitoral é proporcional, onde os candidatos são apresentados em lista aberta do partido ou da coligação, e o número de vagas depende tanto dos “votos válidos” quanto do “quorum eleitoral”, formado por duas partes específicas. A primeira representa a razão entre todos os votos válidos na última eleição e número total de vagas em disputa (QE). A outra, que define o número de vagas para o partido (ou coligação), é o resultado entre o total de votos válidos para cada partido (ou coligação) dividido pelo QE. Portanto, quanto menor o número de votos válidos, menor o número de vagas, ou seja, para os grandes partidos, ou os famosos puxadores de votos, é muito útil a redução dos válidos.
E como resultado dessa matemática, que segundo seus idealizadores busca o equilíbrio entre os votos válidos e a vontade do povo, algumas das cidades mais importantes do país, como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, por exemplo, elegeram seus Prefeitos com menos votos que a soma de todos os votos inválidos (brancos ou nulos) e abstinências.
No Rio de Janeiro, Crivella foi eleito com cerca de 1.700 mil votos e Freixo recebeu pouco mais de 1.163 mil votos, ambos abaixo dos 2.034 mil votos inválidos (brancos, nulos) e abstenções.
São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, com quase 9.000 mil eleitores, não foi diferente. João Dória ganhou de goleada, com 3.085 mil votos contra os 967 mil para Fernando Haddad, mas perdeu para os votos inválidos e abstenções (de quase 2 milhões de eleitores) que totalizaram pouco mais de 3.096 mil.
E em Curitiba, como no Rio de Janeiro e São Paulo, Rafael Greca (PMN) foi eleito com 356 mil votos e Ney Leprevost (PSD) perdeu com 219 mil, e ambos perderam para os 360 mil votos inválidos e abstenções.
Esses resultados evidenciam que o brasileiro está ansioso pelo voto facultativo. A abstinência não mais amedronta assim como não mais queremos ficar atrelados em desvios presentes na democracia de uma América de Terceiro Mundo.
Nos grandes centros, onde votar não tem o cabresto das menores localidades, a soma dos votos inválidos, assim como aqueles que não cumpriram a obrigação de votar, tiveram um crescimento muito acima do esperado e revelaram que os partidos devem realmente se ajustar. É a demonstração do descontentamento com a baixa qualidade de nossos quadros políticos em todas as esferas, municipal, estadual e federal. E que se não houver mudanças, com certeza será mantida a tendência de crescimento no número de votos inválidos e na ausência nas urnas.
Somente com uma reforma política verdadeira, onde o voto obrigatório não seja uma desculpa para a manutenção de interesses próprios e até escusos, haverá a possibilidade de um maior engajamento do povo brasileiro que a cada dia se afasta mais da política suja que inunda o país. É um pequeno passo que poderia provocar um grande avanço e solidificar a democracia em nosso país.
Nós queremos votar, mas não desejamos ser obrigados a votar. Queremos novos nomes, novas idéias, novas propostas e novas ações. Entendemos que somente assim haverá um maior engajamento da sociedade com a política.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Nem Esquerda, nem Direita, para Frente...



“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.” (Bertolt Brecht)

Conheci esse texto ainda jovem, pouco depois dos anos 70, quando até então fazia questão de dizer que “odiava a política”. Fazia parte de uma turma de garotos e garotas, que pensavam mais nas peladas e domingueiras do que nas bombas lançadas na UNE, perto da minha casa, na demora dos militares no poder, nas guerrilhas ou mesmo nos assaltos à bancos, quando uma de nossas amigas chegou a participar e ser presa, a famosa Loura Assaltante, que na verdade era morena, bonita, uns 3 anos mais velha. Simpática e quieta, sem nunca transparecer este seu outro lado de ativista. Dizem que fez parte do famoso grupo de 70 presos políticos  trocado pelo Embaixador suíço Giovanni Bucher em 1971.

Alguns de nossos amigos chegaram a ir para a rua, levaram umas borrachadas, mas nunca se infiltraram diretamente, apesar das histórias que hoje contam quando nos encontramos.

O tempo passou, os militares, que haviam tomado o poder em 1964 para “salvar a democracia  no país” e acabar com a esquerda radical que ameaçava implantar o comunismo no país. Tinham um projeto de transição, que seguiu de pulso firme, num tempo além do esperado pela sociedade, que terminou somente em 1985, quando João Figueiredo cedeu ao apelo das manifestações populares pelas “Diretas Já” de 1984.

E foi exatamente no final dos anos 70, já na faixa dos 20, que li num muro da Faculdade, em letras garrafais, que “o pior analfabeto é o analfabeto político” (B.Brecht), e a frase não saiu mais de minha cabeça. De repente passou um filme que tinha início lá naquele barulho das bombas da UNE, quando corri para ver o prédio em chamas e fui afastado pela polícia e, alguns dias depois, outra bomba no antigo Cine Bruni Flamengo, hoje uma grande Igreja Evangélica, ao lado da sede de remo do Flamengo, onde jogávamos nossas peladas, e que para nós, naquela época, eram mais importantes.

As imagens seguintes me levavam para as paradas militares, para as Copas do Mundo, principalmente ao Tetra de 70, e pula para a grande movimentação das “Diretas Já”, que realmente nos despertou para o que estava realmente acontecendo no Brasil.

O filme encerrava com uma grande constatação: sou um analfabeto político. E não me importava mais se minha turma não se preocupava com a política, aquela situação passou a me incomodar e comecei a olhar o Brasil, e o mundo, de uma forma diferente.

Percebi que o bipartidarismo instituído pelo Regime Militar em 1965 (AI-2) era quase que uma farsa para disfarçar a ditadura militar implantada e que deveria ser apenas para livrar o Brasil do temido comunismo que crescia em várias camadas da população.

ARENA (Aliança Renovadora Nacional), era o partido da situação. Dele faziam parte os partidários do Governo e, consequentemente, os indicados para seus principais cargos, como por exemplo as disputadas Diretorias das Estatais e Fundações.

O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) era a oposição. Uma necessidade para mostrar ao mundo a existência do regime democrático, não autoritário, resultado da rápida transição realizada pelos militares em defesa do país que seguia por um caminho errado.

O problema é que nós crescemos, e muitos como eu, abriram os olhos e aprendemos com aqueles que, com pouca diferença de idade, já lutavam por um Brasil totalmente democrata, sem a imposição de um bipartidarismo em que a oposição tinha que ficar praticamente calada, sob o risco das cassações de seus mandatos.

Num primeiro momento, parecia um confronto entre mocinhos da ARENA, de Teotônio Vilela, Nei Braga, Rui Palmeira e outros, e os bandidos do MDB, como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Fernando Henrique, Mário Covas, Luís Inácio da Silva, ainda sem o Lula no nome, e outros mais que aos poucos levantavam a voz para denunciar os desmandos e o autoritarismo do regime.

Deu também para sentir uma mudança no comportamento dos governos militares. De 64 até 74, o Brasil viveu uma linha mais dura, mais inflexível e com os combates mais duros contra os opositores ao regime. Tudo era política, e quase tudo era censurado. A ditadura vigiava os passos de artistas, intelectuais e religiosos, além dos políticos, fossem eles da própria aliada ARENA ou do MDB. Políticos como Miguel Arraes, ex-Governador de Pernambuco, e João Goulart (Jango), ex-Presidente, ambos cassados pela Revolução de 64, eram monitorados de perto pelo SNI.

E essa luta, embora mascarada, censurada, escondida, ganhou mais força quando chegaram ao poder os militares mais “moderados”. Ernesto Geisel assume o comando em 1974 e faz um histórico levantamento da situação, onde tem a percepção que a “esquerda radical” não tinha mais espaço no país e que crescia na população, acrescida dos antes analfabetos políticos, o desejo pelo fim do Regime Militar, que fez o que tinha que fazer mas demorava a “largar o osso” (o poder), e isso estaria causando um forte desgaste para as forças armadas.

Geisel também constatou que a inflação estava em crescimento e que o país não conseguia superar a Crise do Petróleo de 1973. E não somente o povo reclamava, mas os próprios militares sofriam com o arrocho salarial que afetava todo o país. Sentiu que o próprio regime corria perigo.

E consciente de que a única salvação seria a “abertura política”, determinou uma série de medidas que seriam implementadas, de acordo com suas palavras, de forma “lenta, gradual e segura”. Aos poucos, e ainda pelas mãos de um General, o país iria recuperar as liberdades que ainda estavam sob a tutela dos militares e da ARENA.

Em 1977, depois de alguns acontecimentos marcantes, como as mortes de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho, ambas nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, o Presidente, que tinha poder para isso, editou por Decreto, sem passar pelo Congresso, o Pacote de Abril, com as reformas partidárias para a abertura política de acordo com as pretensões do Governo, lentas, graduais e seguras.

O Decreto estendeu o mandato presidencial para 6 anos e criou o Senador Biônico, ou seja, cada estado iria eleger 2 Senadores e o terceiro seria eleito pelo partido da situação, em outras palavras, pelo próprio Governo. E a medida mais importante seria a implantação das “eleições diretas para todos os cargos eletivos (exceto para Presidente)”, previstas para 1982.

Apesar de não ser o ideal desejado pela população, era uma clara demonstração que o militar realmente tinha o interesse de sair do poder, aos poucos, gradualmente e de forma segura. Mas para quem? Para eles ou para o povo?

Com as eleições ainda indiretas para Presidente, o Governo superou a linha dura dos militares e indicou o também moderado o General do SNI, João Baptista de Oliveira Figueiredo, como candidato da ARENA. Pela oposição, o MDB indicou o General da Reserva, Euler Bentes Monteiro.

Mas antes da posse de Figueiredo, eleito pela maioria do Colégio Eleitoral, e marcada para março de 1979, Geisel deu sua derradeira contribuição para a volta da democracia ao propor e ver aprovado pelo Congresso, o fim do AI-5, o ato que dava um poder quase absoluto ao Governo. Um grande presente para o povo brasileiro e fundamental para que o novo Presidente pudesse dar continuidade ao processo de abertura.

Figueiredo foi firme em suas pretensões. Em agosto do mesmo ano de sua posse, assinou a Lei da Anistia (Lei 6683/79). Uma Lei que anistiou civis e militares envolvidos em crimes políticos no período entre 1961 (25/08) e 1979 (15/08). Miguel Arraes e Brizolla, além de artistas como Caetano e Gil, foram anistiados e retornaram ao Brasil.

E dando prosseguimento, em dezembro do mesmo ano foi assinada a Lei 6767/79, que restabelecia o pluripartidarismo no Brasil, mas com a curiosa obrigação de que todos os partidos deveriam iniciar com a denominação de Partido. A ARENA virou o PDS (Partido Democrático Social) e o MDB, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Era o início para a grande salada de letras e partidos, alguns bastante curiosos, que hoje existem no país.

E a partir de então pude perceber que já não era tão analfabeto político. Participava mais ativamente das discussões mas não tinha me filiado a nenhum partido. Ainda seguia o candidato, e não o partido. Votei em PDS, em PMDB, e em candidatos de outros partidos, sempre pela proposta, ou até mesmo pela amizade, mas me afastava quando via alguma ação radical, e aí sentia que a política tinha que ir além dos nomes e dos amigos, eu tinha que conhecer um pouco mais das propostas partidárias, das ideologias e também das ações governamentais de quem estava no poder, naquele momento, naquela cidade.

Fui convidado algumas vezes para fazer parte de alguns partidos, até mesmo para coordenar a implantação de um partido em determinada cidade, e inclusive para ser candidato a Vereador e Deputado, mas em todas as oportunidades declinei. Pouco tempo atrás me cadastrei no PDS, porque além de uma identificação com as propostas sociais, ajudaria na campanha de dois candidatos, um de Niterói e uma amiga do Rio de Janeiro. Na verdade não me considerava “totalmente alfabetizado” para ingressar formalmente na política mas esse passo foi fundamental para pensar em ser mais atuante.

No início dos anos 90, em especial, na Conferência Rio 92, realizada no Aterro do Flamengo, visitei vários stands, assisti diversos shows, algumas palestras e praticamente foi onde conheci o PV. Nomes como Gabeira, Sirkis, MInc e vários artistas eram os porta-vozes do que para mim parecia mais um movimento ecológico, tipo um afilhado do Greenpeace, do que propriamente um partido político.

Dava a impressão que seus partidários eram PV mas na política falavam como se fossem de outro partido, como por exemplo, o Minc, que ajudou a fundar o PV e pouco tempo depois estava filiado no PT.

E foi mais ou menos essa a linha de pensamento que segui durante algum tempo. É como se o PV fosse o América no Rio de Janeiro, ou seja, o nosso “segundo time”. Gabeira fazia a diferença. Sabia um pouco de sua trajetória de jornalista e militante político da esquerda armada contra a ditadura militar. Quando preso e exilado, sempre chegava alguma notícia, algum texto, principalmente quando na queda de Allende, em 1973. Sumiu um pouco quando foi para a Europa, de onde voltou anistiado em 1979.

Nas eleições de 1986, então candidato à Governador do Rio de Janeiro pelo PV, mais por ele próprio do que pelo partido, Gabeira foi meu candidato. Sua presença deu mais alegria ao pleito. Nos palanques apresentava uma posição bem diferente dos outros candidatos, a maioria com discursos chatos e cheios de promessas comuns e repetitivas. Levou o povo para duas manifestações que até hoje são lembradas, em uma delas encheu de flores a Avenida Rio Branco na passeata Fala Mulher e deu um inesquecível abraço na Lagoa Rodrigo de Freitas. Era a apresentação do PV no Brasil, um partido que seguia, e segue até hoje, uma tendência internacional contra o desarmamento, pelo fim das usinas nucleares e o investimento no ecodesenvolvimento. Um partido declaradamente contra as desigualdades sociais, de respeito às liberdades democráticas, justiça social e direitos humanos, como bem definido em seus Princípios.

Se fizermos uma análise nas propostas da maioria dos partidos, os Princípios sociais serão próximos aos do PV, a diferença fica por conta de sua forte atuação contra as agressões ao meio ambiente.

E apesar do partido ter em seus Princípios objetivos básicos da esquerda socialista, na busca por uma melhor distribuição de rendas, justiça social e “solidariedade com todos os setores excluídos, oprimidos e discriminados”, não se vê como um partido de esquerda ou de direita, e sim numa “posição à frente”. E foi essa frase que me conquistou, que me levou para o PV, para conhecer de perto as propostas e programas verdes.

É uma nova fase, mais próximo de palanques e manifestações, e que aos poucos vamos descobrindo que o PV realmente não é apenas um movimento ecológico em favor do meio ambiente, é realmente um partido político, que está passando praticamente ileso dos problemas que enfrentamos em nosso atual cenário político, e que vem não somente crescendo com nomes próprios mas também despertando o interesse de políticos experientes que desejam o afastamento de legendas comprometidas, ou mesmo pela identificação com os propósitos do partido.

Gabeira continua como ícone. Deputado de grande influência no Congresso e o mais votado no Estado do Rio de Janeiro em 2006. Candidato à Presidente em 1989, à Prefeito em 2008, e o segundo colocado para Governador do Rio nas eleições de 2010, tudo indica que ainda seguirá firme em sua vitoriosa trajetória.

Quanto ao PV, acreditamos que está na hora de crescer. Os Partidos Verdes, em especial na Europa, estão se fortalecendo, ampliando suas conquistas e assumindo lideranças, um caminho que entendemos irreversível, inclusive no Brasil.
E para isso faz-se necessário a participação efetiva do PV nos avanços por uma sociedade justa e perfeita, com melhor qualidade de vida, educação ambiental, modernização e o “desenvolvimento sustentável como caminho para combater a miséria e o desperdício”, como claramente previsto em seus propósitos.

E como disse Millôr Fernandes, “sou contra a extrema-direita, contra a extrema-esquerda e sobretudo contra o extremo-centro”.

quinta-feira, 10 de março de 2016

A Constituição do Medo


Q
ue ano complicado. O tempo passa e a gente não sente. Carnaval, Semana Santa, Olimpíadas,  Eleições, sem contar que iniciamos o ano com mais um Campeonato de Futebol no meio dos tantos já existentes.

Em quase tudo podemos ou não participar, ou então, no caso de disputas, por opção, apenas torcer para que ganhe o melhor. Dizemos em quase tudo, pois naquilo em que deveria ser o maior exemplo de liberdade, de refletir os ideais democráticos, sem qualquer obrigação, e imperar a vontade ampla, geral e irrestrita do indivíduo, persiste a obrigação de comparecer para votar.

O voto é o símbolo da República. No Brasil, a primeira eleição deu-se em 1891, de forma ainda indireta e realizada entre os valorosos republicanos que derrotaram a Coroa Brasileira. Apenas os homens podiam votar e seus votos eram livres, poderiam ser ou não declarados. Os candidatos eram homens da sociedade e escolhidos livremente. Uma liberdade total, sem controle, e no início, sem grande interesse da população.

Apenas como ilustração, na eleição seguinte, em 1894, já com a votação popular, foram votados mais de 200 candidatos, sendo eleito Prudente de Moraes, com cerca de 290 mil votos, que representou em torno de 88% dos eleitores (masculinos) que participaram do sufrágio.

Durante toda a Velha República, o voto foi livre e não obrigatório, mas totalmente dominado pelas oligarquias predominantes. Aos poucos, os partidos iniciaram avanços além de suas bases estaduais. A política tomava corpo no Brasil e em 1930, Getúlio Vargas, candidato da Aliança Liberal, formada por 5 partidos políticos, que lutava contra o coronelismo que ainda regia a maior parte do país, foi derrotado nas eleições mas tomou o poder com a Revolução que mudou o rumo do país.

Getúlio, com seu discurso populista, conquistou o povo durante seu governo provisório. Superou a Revolução Constituinte de 32 e criou o Código Eleitoral (Decreto 21076/32) que instituiu a obrigatoriedade do voto para os eleitores acima dos 21 anos.  Vale a pena citar que este Código também assegurou o direito das mulheres, também acima de 21 anos,  de votarem e serem eleitas. Uma vitória parcial, pois o voto para elas não era obrigatório e as mulheres casadas dependiam da expressa autorização dos maridos. Às viúvas e solteiras, era permitido somente se possuíssem renda própria. Tais restrições foram retiradas na revisão de 34, que manteve a não obrigatoriedade do voto feminino, somente estendida em 1946. Em 1934 também foi implantado o voto secreto.

De lá para cá muita coisa mudou. O Brasil evoluiu. A população votante, com a obrigatoriedade para os maiores de 18 e menores de 70 anos, e facultativo, para os que encontram-se entre 16 e 17, ultrapassa os 200 milhões de eleitores. E está situado entre as 10 maiores economias do mundo, com uma democracia sólida e reconhecida mundialmente, e que tem por base a independência dos seus poderes legislativo, executivo e judiciário.

Dos mais de 200 países reconhecidos como livres e democráticos, apenas 24 mantém a obrigatoriedade dos votos, sendo que 13 encontram-se na América Latina. Coincidência? Parte de uma política externa predominante nas ações internas? Qual o verdadeiro interesse dessa anomalia democrática?

Seria de se esperar que os Constituintes de 1988, que montaram a “Constituição Cidadã”, recheada de direitos civis e trabalhistas, coroassem a Nova República com a sua plenitude democrática. Que o processo de abertura fosse enterrar os tempos autoritários dos governos militares.

Mas ao que tudo indica, diante de tudo por que passamos e pelo que estamos passando, nos leva a crer que os Constituintes mantiveram essa obrigação eleitoral simplesmente por “medo” de não deixar transparecer qualquer indicação de descontentamento com a volta das eleições livres e diretas. Não poderiam deixar dúvidas quanto ao “fracasso do regime militar” e suas “eleições indiretas”.
Fica mais claro quando olhamos para a América Latina e constatamos que quase todos os países do bloco, tinham ou estavam passando por crises democráticas semelhantes, alguns inclusive com lutas mais sangrentas e regimes mais severos, mais fechados.

E essa Constituição, que deveria ser o símbolo maior de uma democracia sólida e moderna, fica caracterizada como a “Constituição do Medo”, coroada pela corrupção e pela impunidade de políticos que não foram fiéis à liberdade conquistada, e que até os dias de hoje não tiveram a coragem de enfrentar a verdadeira voz do povo, a “voz dos votos”.

Não queremos deixar de votar, desejamos apenas sermos livres para expressar diretamente, pela presença ou pela ausência, pelo voto nulo ou pelo voto branco, o quanto estamos ou satisfeitos com a atuação dos políticos eleitos democraticamente.  O resultado das urnas será então mais real e um verdadeiro instrumento para mudanças e evolução, tanto em formas quanto em direitos.

E se o desinteresse for maior do que o esperado, de quem será a culpa? Haverá uma culpa? Arrisco a dizer que a sujeira na política, certamente irá tender para afastar os eleitores, mas essa mesma sujeira, servirá de catapulta para eleger nomes que uma minoria votante irá acreditar que a limpará para sempre.  


Uma correta avaliação da voz das urnas, com o cerco e o combate permanente à corrupção e à impunidade, assim como a outros males que rondam nossa política, certamente a liberdade de poder votar ou não votar, servirá para aumentar a participação e a representação dos eleitores nos sufrágios livres e democráticos de nosso país.